Ainda a sorte de varas nos Açores

Sortes Picadas


Volvidos quase seis anos após semelhante iniciativa veio, recentemente, a público a pretensão de alguns deputados da Assembleia Legislativa Regional da Região Autónoma dos Açores de trazer uma vez mais para o debate parlamentar regional a legalização da sorte de varas, uma sangrenta prática de tortura animal, proibida em todo o território português, em vias de extinção a nível mundial, e já rejeitada, por diversas vezes, nos Açores.
Num momento de grande dificuldade económica e social na ilha Terceira, como consequência dos despedimentos na base das Lajes, vem novamente um conjunto de deputados empenhados na urgência de um projecto legislativo que consiste em nada mais nada menos que legalizar uma nova forma de torturar ainda mais os animais (touro, cavalo e homem), apenas para satisfação de ideias retrógradas alicerçadas em falsas tradições existentes na referida ilha.
Não deixa de ser surpreendente que uma parte dos nossos representantes políticos, num período de grandes constrangimentos económicos, tenha como urgência a legalização de uma prática que para além de nada ter a haver com a imagem internacional que o mundo tem das ilhas dos Açores, tortura animais e consome avultadas verbas públicas.
Segundo o Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA) o Governo Regional dos Açores e autarquias esbanjam cada ano em touradas perto de 580 mil euros de dinheiros públicos, que saem do bolso de todos os contribuintes açorianos, através de apoios e subsídios directos ou indirectos à tauromaquia.
A verdade é que uma pretensão de uma minoria de açorianos envergonha um grande conjunto de cidadãos açorianos, que se têm expressado veemente contra a referida intenção legislativa quer nas redes sociais quer em petições e manifestos.
Uma delas é a petição "Corridas picadas nos Açores NUNCA” (disponível em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT75986) que num escasso período de tempo já conta com mais de 2300 subscrições.
A petição acima de tudo identifica a sorte de varas ou corrida picada como um notório atentado à integridade física dos animais e uma atitude que indica um retrocesso civilizacional nos Açores apelando a não permissão da eventual legalização.
Outra iniciativa embora com menos participantes mas bastante representativa em termos políticos e sociais foi o “Manifesto contra a legalização da sorte de varas nos Açores” disponível em http://bit.ly/1zLnADt.
O manifesto subscrito por diversos políticos e ex-políticos (incluindo Presidentes da Assembleia Legislativa Regional da Região Autónoma dos Açores e do Governo Regional dos Açores), bem como artistas, professores universitários, jornalistas, representantes de organizações da sociedade civil, entre outros cidadãos, defende que qualquer prática legalizada numa das ilhas dos Açores implica a Região no seu todo e que a iniciativa que contempla a introdução da Sorte de Varas, já rejeitada em 2009, mancharia a imagem dos Açores, repudiando a eventual iniciativa parlamentar.
Num momento que em Portugal já é crime torturar animais (com anacrónica excepção para as touradas) e que a prática da tauromaquia é abolida em todo o mundo civilizado, legalizar sofrimento animal unicamente para divertimento humano não é mais que um arrepio no desenvolvimento civilizacional.
Parece-me, unicamente, que com a referida iniciativa parlamentar se usam os animais para os torturar em prol do prazer de um pequeno conjunto de pessoas, aplicando em tal acção significativas verbas públicas despendidas por todos os cidadãos, conseguindo o desiderato de passar uma imagem internacional completamente errónea do paraíso que é o nosso arquipélago, como se de picar a nossa sorte se tratasse.
(Correio dos Açores, 12 de Fevereiro de 2015)

[Por: 0 @ 2015-02-12, 02:47 | Responder | Imprimir ]
Categoria: MATP




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